Comentário

<i>O Conselho Europeu e a defesa do capitalismo</i>

Ilda Figueiredo
Se dúvidas houvesse sobre a posição dos responsáveis da União Europeia relativamente às graves crises do capitalismo, aí está a posição do último Conselho de 15 e 16 de Outubro, que apoia as instituições financeiras em dificuldades, mas esquece a crise social, a situação de pobreza em que vivem cerca de 80 milhões de pessoas nos seus Estados membros, o trabalho precário e mal pago, o desemprego.
Nas suas conclusões, divulgadas pela presidência francesa da UE, as preocupações fundamentais são as que visam salvar o sistema capitalista, insistindo na necessidade de manutenção dos mecanismos que asseguram o seu funcionamento, designadamente as políticas de concorrência e de mercado livre, apenas alterando alguma coisa não essencial, para que tudo continue na mesma.
Veja-se o caso das ajudas dos Estados colocadas ao serviço do sector financeiro. Nem aí há uma política associada de baixa de taxas de juro para as populações com problemas de crédito ou sequer de alteração dos objectivos do Banco Central Europeu. Querem manter uma base essencial da centralização e concentração capitalista, ou seja o controlo dos salários e da baixa do poder de compra das populações, de forma a garantirem os lucros que alimentam o sistema. Mas o que se impunha era uma alteração da falsa autonomia do BCE, para garantir a subordinação das políticas monetárias aos interesses colectivos, e, assim, promover uma baixa significativa das taxas de juro visando a prioridade à criação de emprego com direitos, à resolução da pobreza, à melhoria do poder de compra dos trabalhadores e dos pensionistas, ao aumento da produção, única forma de revitalizar a economia. O que também exige uma maior percentagem da banca nacionalizada e de sectores estratégicos na área pública, pondo-se fim às privatizações.
Falam de novas regras e de mais transparência, criam até uma chamada «célula de crise financeira», mas esquecem medidas que acabem com os «paraísos fiscais», por onde passam os negócios de branqueamento de capitais, da corrupção, das fugas ao fisco, dos tráficos de seres humanos, da droga e das armas, o que gera e alimenta parte significativa da especulação que as bolsas multiplicam, nessa financeirização que hoje afecta a generalidade do mundo capitalista. E, mesmo quando referem a responsabilização dos «actores do sistema financeiro, nomeadamente do sector bancário» e das «remunerações, incluindo as indemnizações douradas» dos gestores, limitam-se a defender a sua contribuição efectiva para o lucro das empresas e a chamar a atenção para os riscos excessivos de uma extrema focalização no curto prazo. Bem diferente do que faz o Banco Central Europeu, cujo presidente insiste sempre na necessidade da moderação dos salários ao justificar as suas posições sobre a manutenção de taxas de juro elevadas.

O que falta mudar

Quanto às políticas orçamentais, insistem na necessidade de se inscreverem no quadro do Pacto de Estabilidade revisto, embora acrescentem que a sua «aplicação deve igualmente reflectir as circunstâncias excepcionais que atravessamos, como as suas regras prevêem», o que dá para tudo: manter as restrições orçamentais, de acordo com as regras, ou aumentar o défice com o argumento da crise que se vive. Mas faltam duas medidas básicas fundamentais: substituir o Pacto de Estabilidade por um verdadeiro Pacto de Progresso e Desenvolvimento Social e aumentar substancialmente o orçamento comunitário para apoiar os países com economias mais débeis e maiores problemas sociais, de forma a garantir uma justa redistribuição da riqueza, uma aposta no investimento produtivo, nos serviços públicos essenciais e na melhoria do poder de compra das populações.
Por isso, é urgente uma ruptura com estas políticas do capitalismo. Portugal precisa que se cumpra o objectivo defendido no preâmbulo da nossa Constituição da República, saída da revolução de Abril: «Abrir caminho para uma sociedade socialista, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno».


Mais artigos de: Europa

Contestação aumenta

Mais de meio milhão de trabalhadores e estudantes desfilaram, dia 17, nas principais cidades de Itália exigindo aumentos salariais e contestando as políticas anti-sociais do governo de Silvio Berlusconi.

Combate social

Após a jornada de luta dos reformados pelo poder de compra e a greve dos professores do básico de Paris, a capital francesa assistiu no domingo a uma grande manifestação contra os cortes na Educação.

Greve geral na Grécia

A maioria das actividades económicas e serviços públicos da Grécia parou, na terça-feira, 21, durante 24 horas, em protesto contra as políticas económicas do governo conservador de Costas Caramanlis.A greve geral foi convocada pela Confederação Geral dos Trabalhadores e pela Federação dos Funcionários Públicos, que...

Berlim em luta

Milhares de trabalhadores dependentes das autoridades regionais de Berlim uniram-se numa frente de protesto por aumentos salariais e melhores condições de trabalho.As greves e desfiles começaram no dia 13 e culminaram dia 16 com uma poderosa manifestação frente ao governo da cidade-estado, que reuniu professores,...

Agentes desafiam sanções

Milhares de polícias e guardas espanhóis participaram, no sábado, 18, numa manifestação em Madrid para reivindicar aumentos salariais, afrontando as ameaças do governo de aplicar sanções aos manifestantes que podem chegar à expulsão.«As pressões não afectaram a manifestação», declarou à imprensa o secretário-geral da...

Oposição vence regionais

O Partido Social-Democrata Checo (CSSD), liderado pelo ex-primeiro-ministro Jiri Paroubek, obteve uma clara vitória nas eleições regionais celebradas nos dias 17 e 18, superiorizando-se aos conservadores nos 13 distritos do país.Segundo os resultados oficiais divulgados no domingo pela comissão eleitoral, os...

Notícias da crise

O Banco Central da Hungria foi socorrido, dia 16, pelo Banco Central Europeu que abriu uma linha de crédito de cinco mil milhões de euros para garantir a liquidez na moeda europeia aos bancos do país. Os investidores estão a vender activos na Hungria, o que provocou a queda da bolsa em 50 por cento e da moeda nacional, o...